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2016-07-14 10:29:00
A Minha relação com a Nie ...
A Minha relação com a Niepoort e alguns pensamentos sobre essa relação e em seu redor
2016-07-05 10:29:00
Nova Plataforma TRALHÃO
Hoje colocamos online a nossa plataforma Tralhão.
A Minha relação com a Niepoort

A Minha relação com a Niepoort

 
E ALGUNS PENSAMENTOS SOBRE ESSA RELAÇÃO E EM SEU REDOR

a) Introdução
 
Niepoort é para mim uma Instituição, em vez de uma empresa ou de uma marca.

Tinha eu 6 anos, e já conhecia todos os recantos do armazém de Serpa Pinto - A Catedral - porque ia para lá com o meu Avô aos sábados. O meu Avô reservava o sábado para trabalhar tranquilamente nos blends e levava-me com ele frequentemente. Eu acompanhava-o pelo armazém, ajudava-o em algumas tarefas (para ele me entreter com certeza) e no final presenteava-me com uma miniatura de uma garrafa de vinho do porto (colecção que mantenho intacta, com excepção de um exemplar de Niepoort VV que ofereci ao Dirk Niepoort no seu aniversário de há 2 anos).

Durante muitos anos, a Niepoort era sinónimo de vinho para mim. E a maneira de fazer da Niepoort não era uma maneira, mas A Maneira. E ainda é ...
 
b) A Niepoort como ... uma máquina de Lançamento
 
Uma componente importante do sucesso da Niepoort é o princípio de informar os consumidores, em vez de apenasvender. Ao invés de estar num "modo de venda", como agente comercial, a Niepoort concentra-se em educar os consumidores sobre o que é um vinho, por que ele existe e como esse vinho pode melhorar a felicidade e as vidas dos seus consumidores através da sua degustação. Na verdade, devemos diferenciar as duas disciplinas, dizendo que marketing não é o mesmo que vender. Esta ideia de ensinar, ao invés de vender, constitui o mantra da Niepoort de fazer os melhores produtos possíveis, o que de per si fará com que eles se vendam. Vendem-se, porque são bons, e não porque são empurrados.

Este é um primeiro Ponto: fazer os melhores produtos possíveis, que per si se irão vender.
 
c) A Niepoort como ... Um Conceito

A Niepoort não considera nenhum vinho como sendo o seu melhor produto, mas em vez disso aponta para uma ideia de que os clientes ainda valorizam produtos feitos com arte e de alta qualidade. Com isso, a Niepoort tem tido um sucesso enorme com os seus vinhos, que não são de modo algum baratos, o que prova que muitos consumidores ainda premeiam a qualidade em detrimento da poupança.

Estamos cercados por vinhos anónimos e de fraca qualidade. É tentador pensarmos que tal se deve ao facto de as pessoas não se importarem com o que bebem, assim como as pessoas que os fazem também não se preocupam com a qualidade do que produzem.

Mas o que a Niepoort tem mostrado é que as pessoas se importam.

Os consumidores que compram vinhos Niepoort não gostam de um Charme, ou Batuta, ou Redoma, ou mesmo de um Fabelhaft porque ele parece bom, ou porque dizem que na prova é bom, mas porque se preocupam com produtos que são cuidadosamente concebidos e bem feitos.

A Niepoort produz e vende um número muito grande de (felizmente) produtos agradáveis, vinhos bem feitos. O sucesso da Niepoort constitui uma vitória da pureza e da integridade, com total despreocupação.

O produto que tem na sua mão, ou que cheira com o nariz, ou o que sabe na prova é mais pessoal do que o produto que tem sobre a sua mesa ou que veste. A luta para fazer algo tão difícil e exigente como um vinho é tão intimamente pessoal que foi o que em primeiro lugar atraiu a Niepoort no início do século XX com o avô do Dirk Niepoort e o meu avô José Nogueira (acompanhados pelo meu bisavô até 1978). As pessoas têm uma incrível relação pessoal com o que a Niepoort faz.
 
Isso é um segundo Ponto: A especial atenção aos detalhes da arte de produzir da Niepoort, entregando aos consumidores o que a Niepoort pensa que eles desejam.

Eu não posso resistir a partilhar uma frase do meu Avô José Nogueira: "Nós (provadores) fazemos o vinho que gostamos, e esperamos que as pessoas que o vão provar gostem dele como nós gostamos."
 
d) A Niepoort e os Críticos

Como uma empresa inovadora e familiar, a Niepoort ouve muitos dizerem que precisa de descobrir e conseguir produzir o que as pessoas querem, o que significa ouvir os seus críticos, muitas vezes, com mais paciência do que gostaria.

A Niepoort decidiu virar o jogo e concentrar-se em produzir o que quer produzir, não se importando com o custo apercebido. Quando a Niepoort se estreou nos vinhos de mesa do Douro, os críticos disseram que seria um fracasso. Os números dizem o contrário.

Cada vez que a equipa da Niepoort, principalmente o seu líder Dirk Niepoort, decidiu inovar, riram-se deles. Mas a Niepoort e os seus produtos prevaleceram de qualquer forma.

Albert Einstein disse: "Grandes ideias muitas vezes recebem violenta oposição de mentes medíocres."
 
Essa é uma terceira observação: A Niepoort gosta de ouvir, mas no fundo decide pelo seu próprio pensamento.
 
e) Comunicar na Língua do seu Público

Não faz sentido falar de parâmetros como taninos, Ph., e SO2 livre para os consumidores que, simplesmente, não se preocupam com o jargão técnico. Se reparar, em qualquer produto Niepoort, e na sua ficha técnica, vai descobrir que, embora estejam registadas as especificações do vinho e a informação técnica, tudo isso vem após os temas que quem os ouve e a sua legião de fãs verdadeiramente procura.

Em vez de acidez total, encontram-se frases como "pisa a pé", "maceração suave", "fermentação a baixa temperatura", "intervenção humana". Claro que o jargão está lá para aqueles que precisam dele, mas é apresentado de uma maneira que faz com que se queira aprender sobre como se produz vinho, em vez de se fugir desse tema.
 
Isso é uma Quarta Observação: A Niepoort fala da maneira como as pessoas comuns compreendem e não como um cientista que fala para si mesmo.
 
f) Criar uma Tribo
 
Não é nenhum segredo que a Niepoort está a construir uma das bases de fãs mais fiel do que qualquer outro produtor do Douro. Há uma razão para lhes chamarmos "Niepoortboys&girls."

Mas quem se importa com isso? A maioria das conversas é por inveja mais do que tudo, mas a Niepoort efectivamente não se importa. A Niepoort sabe que serve um público de elite, e, ao invés de se afastar desse facto, abraçam-no. Não é uma elite económica, mas uma elite dentro do vinho: uma elite que gosta de experimentar e aprender. E a Niepoort dá-lhes o que eles precisam, os produtos a seu gosto, o aprender e o amar.
 
Isso é uma Quinta Observação: A Niepoort criou uma tendência de seguidores, infelizmente ninguém é da área da vinificação até agora...
 
- O Fim e uma Conclusão
 
Como um Niepoortboy, como se pode perceber a partir dos escritos anteriores, eu sou um crente na maneira Niepoort. E respeito a Niepoort como o meu Avô me ensinou: não correr ao redor da Catedral, para não perturbar o vinho, e respeitar qualquer produto Niepoort, pois ele representa um cuidadoso trabalho hercúleo de muitas pessoas.

Foi o meu Avô que me ensinou a aprender e a amar o vinho, ele que vivia o vinho à maneira Niepoort. Na verdade, ele era um dos homens da arte da prova contribuindo para o que eu chamo agora a maneira Niepoort. O meu Avô morreu em 2009, e eu tornei-me um órfão no que respeita ao vinho ... em 2012 comprei a vinha do Tralhão e o Dirk Niepoort ocupou o lugar do meu Avô como a minha referência na maneira Niepoort.
 
Neste momento, estão em fase de lançamento os meus próprios produtos: o Tralhão 2013, branco e tinto, do Douro, feitos a partir da minha própria vinha. E eu trago a maneira Niepoort sempre comigo: respeitando o Tempo e a Natureza. Da videira para a garrafa com um cuidado especial pelos detalhes, mesmo com a experiência de abrir a caixa do vinho. Mesmo na criação de um selo de fecho das caixas de vinho com a inscrição: "ó de leve ... profundamente..." com o desenho de um nariz, porque o meu Avô sempre me disse quando provávamos: “cheira ... cheira ó de leve ... e depois… cheira profundamente".
 
O Dirk ajudou-me na vinificação dos vinhos Tralhão, a partir de 2013. Vinhos que ele e eu gostamos de Provar e que esperamos que quem prova e degusta também goste, como nós. Muito obrigado ao Dirk por todo o apoio, e a todos na Niepoort pela forma como trabalham, que, para mim, é mais do que uma maneira de fazer: é um respeito pelas referências do passado.
 
São Félix da Marinha, 14 de Julho de 2016

Miguel Couto Ramos